domingo, 20 de dezembro de 2015

Agora eu vou sozinho. E vou matar o mundo. Meu nome, obviamente, é o primeiro e o último da lista.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Por que Oxalá chorou?
Porque, minha mãe da terra?
Quem foi que fez
A lágrima do velho renascer?

É que ontem sorri pro mar
É que ontem morar na areia
Foi por você meu bem
Bem que hoje é longe, estrela

E amanha ainda é por aqui
Que abraça a lágrima entidade
Dormiu sorrindo pro meu bem
E acordou a chorar de saudade

Oxalá chorou
Para um bem morrer
Oxalá chorou
Proutro bem nascer

Oxalá chorou
O amor é centelha
Oxalá quem viu
O amor virar estrela.

domingo, 29 de novembro de 2015

domingo at nitght
vejo uma formiga pular
vejo um quarto descansar
digito saudades no ar.
entendo o que não é pra entender
pra crer
na segunda que vem
segunda chance de quem tem
quem tem quem tem quem tem
um real é só pra quem tem
um normal pra quem tem também
o calor de domingo at night.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

vai

não há alguma coisa
sem sentido algum
há milhares de insônias 
há toda essa cabeça 
pós enlouquecida 
amadurecendo
num quintal onde
ainda há
uma luz acesa
sangrando os pés 
numa pista velha
chamada dois de julho.
chamada dois
ao andar de cima 
só os louco
só só só as louca 
tem acesso acordado 
aos sonhos 
não há alguma coisa
sem sentido algum.
Se plante aí no fluxo.

COMO PREVISTO. VISTO. ISTO.

Você poderia saber, já, do que se tratava, poderia prever essa merda que fiz, esse deitar e rolar choroso dentro dessa jaula em que durmo muito. Você sabia, e o sentia a todo momento-essa é sua sanidade - rangia os dentes e dava socos nas coxas por raiva d'eu ser tão mundo, grande, quieto, seco, chato até pela internet.
Você sabe do que se trata.
Você sabia, já, do que se trava.
Esse seu carma que é o pé no chão, essa desgraça que é sua não assiduidade no mar - pelo comer essa grana verde, seca de si - essa sua parte doce não me amava, mas me lembrava em imagem e semelhança.
Isso de ter que ir só ali do lado, na dinha, isso de ter que ficar aqui parada, de cara, SOZINHA! Isso é comigo, você comigo é pouco.
Você, comigo, era calma
você                         alma
você
mais
eu
é
menos
o amor e o ódio de sua loucura
grudados ao lado da jaula
me vendo dormir
você poderia saber do que se tratava
mas sua sanidade
se apaixonou por mim.

Eu brindo sua loucura
brindo sendo ruim
você é tudo que eu jamais serei.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sem blefe

Quando eu era mininin
Não tive que aprender a inventar
O peixe assim.
Beijava o mato
E morava o mar,
Arranho traqueia
De descer soluço
De choro cansado
De ignorar
Sorrisos.

Não juntei conchas do mar
Não endureci o amor
Decidiu-me acompanhar
A dor

Não fui à rua pra voltar
Antes de pescar tua voz
Nenhum choro há de secar
Em nós

sábado, 17 de outubro de 2015

Mãe Lagarta

O abraço da minha mãe é verde
possibilidade verdade
irá
de
ver
de
ser filho marrom.

O abraço de minha mãe é casa
e é antes da percepção.
Se acreditas, ou não
já foi plantada a roça
e de lá nasceu
meu coração.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Devo simplificar a vontade
Para aprofundar o meu beijo
Para amadurecer o desejo
Ambição é uma ferida aberta.

É aberta ao cotidiano
Deprime toda a pele num engano
De esquecer o vento da Bahia

Que ia
É continua a ir

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Tristeza Astuta

Já dizia-me a velha tristeza astuta, esguia e perfumada de sua lucidez: traiçoeiro é o momento forte de segurança.
Encontro-me nu à frente do espelho e lembro-me, enxugo-me e olho-me. Lembro-me dos recentes três minutos passados, onde encontrava-me atingido pelo aquífero artificial doméstico, aquele que leva o nome mais poético que um objeto de tal gênero poderia levar: chuveiro. ''Chuv'', digo, vem de chuva, a chuuuuuuvaaaaa, e ''eiro'' é terminação que designa todo brasileiro (macho, pois quando fêmea é ''eira'') ao labor que é o sangue correndo às veias vermelhas. Nesse sentido, não elevo-me a nada além de um mero sangueiro.
O chuveiro, felizardo nominado, cumpria sua função de molhar-me a carne seca e mal cuidada, e eu, sangueiro, mantinha-me vivo, logo, cumpria também aquela simples função à qual me designara. O momento simples é o cúmulo da covardia. A complicação referente a esse era ainda mais covarde: bateu uma vontade da porra de morrer. De súbito? Sempre - segundo pesquisa do datafôia, após explicarem situações, acontecimentos ou o filho bastardo - sentimento, dos quais não se obtém a agradabilidade de qualquer conforto, 99,9% de todos os brasileiros de 13 a 29 anos usam a arma fonética, sintética, gramatical e semiótica do seguir da fala com um lindo, isolado e impetuoso ''DO NADA VEI''.
Eis o pai irresponsável da segurança. Sabe de nada, inocente. A sopa mais densa, o caldo mais grosso, arquiteto do futuro, o inconsciente (ou o sub) nunca deu-me as caras pra além dos livros de freud e suas referências, e é nesse personagem lendário e mítico que habitam as memórias esquecidas, os traumas condenatórios, os flashes desprovidos de foco, e toda a explicação sobre dentro está fora? Nesse momento, nada disso convence, esse momento é de matéria palpável ao coração de quem vos escreve. Portanto, até que a tecla acima do enter imponha-me seu momento, convencendo-me a jogar todo o texto por água abaixo, recito-lhes a frase mais carregada do século: ''DO NADA, BATEU UMA VONTADE DA PORRA DE MORRER''.
Exprime beleza pelos poros, as pérolas pós-modernas existem enquanto possibilidade (POSSIBILIDADE) de serem mil poesias não declamadas, de serem a contradição antecedente ao dizer, afinal, nada disse-lhes sobre o que fora minha vida antes desse meu banho, e veja onde estamos...
Bateu uma vontade da porra de morrer, mas restam os dois verbos não explorados, ''olho-me'' e ''enxugo-me''. Aqui, discorri apenas sobre o ''lembro-me'' e esse momento passara. Enxugo-me por vontade de secar a pele, há algo fora desse banheiro que me chama seco. Olho-me, rindo de leve e não mais lembro, penso - astuta é a tristeza, passa por tudo isso sem, em nada, deixar de convencer. Ela nunca duvidou de um momento para si.
Traiçoeiro é o momento fértil de segurança.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

trecho sobre o amor, extraído de algo para sempre mim

Quando, na verdade, tudo que tenho pra alimentar o coração é lembrança, teimosa e soberana, proteica e amarga, orgânica, algum impulso escondido por uma máscara de proteção divina - pois às vezes é melhor não saber donde vem os tais impulsos - empurra-me à minima e digna vontade de amanhã acordar pra além da própria memória, pro desejo desapoiado de que um dia, os dias tenham passado, e seu rosto, seu corpo, suas pintas, seu movimento, possam tomar conta de tudo como agora não podem, não devem.
Nunca chegará. Inocências à parte, sabemos que se há um lugar onde os desejos nunca chegam é em sua própria imagem, ninguém volta pro berçário com vontade de morar por lá. Esse desejo desembocará na surpresa aquarelada, esfumaçada, esfacelada, longínqua, subconsciente da qual se nutrirá minha eterna vontade de, sendo eu, ser você.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

azul graçado

olha pro céu, meu amor
olha a tensão àzular
olha pra baixo, olha aí
companhia pra amargar

traz pra cá, chega mais
como andas, como vai?
pois viestes acompanhar
merda, desgraçar, desgraçar.

olha pra cima, a ironia
olha o que de bom que ia
no role via magia
foi se agarrando aos dias.

olha pra cima, a ironia
duvida e dor, agonia
duvida e espelho angustia
por mim, ansía, ansía
la em cima a azul ironia.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Desses dias - espero que em diante, diante de antes.

Esses dias vêm acontecido, venho-me esquecendo de tomar café, porque o café é pra mim, serve-me ao passo em que passo prum novo lugar com vontade de esquecer algo de antes. Mas a lembrança agora é recente, é assídua, no mínimo, semanal. A lembrança agora tem nome, a lembrança agora Corria, e eu, corro, corro, chorro, choro, corro junto a ela. Não é algo do qual curto a parte da loucura do não saber - aquela masturbação adolescente na qual se conhece de longe a trasheria, na qual se ascena pro amor nos sábados eternos até que se durma - não, é algo que tomou-me o lugar da vontade de viver, de conhecer, quero que leve-me pronde achas que gosto, quero que mostre-me onde toco-lhe a alma e te puxo, forte, pra perto de mim, quero que isso seja o caminho e, por ele, sigamos de alguma forma bem. Será possível.  Tem-se aqui o tempero vegano que é a diferença: somos diferentes em formas que criamos, somos diferentes no sorriso que damos, só eu e você, numa pequena mesa de bar, levantando pra ir ao banheiro e necessitando, antes, de ceder ao impulso de um beijo em quem está à sua frente sentado, eu, você, o que mais quisermos. O que eu quero é estar contigo, de coração aberto às suas vontades e de barriga pra cima pras tuas mãos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

vela

A vela na casa queima
A vela na casa é luz
Abençoa a estranheza do tempo
Respeita quem, com dor, conduz

Na casa no Centro só há
A porta
O colchão
E uma vela a queimar

Na casa no Centro, o ar
Respiram a vela
e quem mais
for chorar

A vela acesa é dentro
O espelho na sala é o riso
Todo meu conforto é teu peito
A porta é dos oprimidos

Na casa no Centro só há
a porta
O colchão
e uma vela a queimar

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Se dá de gente.

A umidade é de cor misturada
é de corpo na rua, que é mãe
para por descansar na calçada
proseando a história em lágrimas

nestante ainda és boi ou vaca
nestante és caboclo ou mãe preta
nesse instante de ontem escravo
nesse ontem de hoje; amor bravo

nada velará a raiva à miséria mês
nada velará as mãos dadas calejadas

o manifesto, a pau de arara
veio à calçada, prosear,
trazer o coração do mato
pro sangue grande bombear

nada velará a raiva de toda casa grande
nada velará o amor na panela de barro
a umidade da rua é de prosa, poesia
corpos morreram novos, corações nunca escravos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Poema besta

A pessoa boba, besta
trai o amor
pensando no amar que é
o mar da manhã seguinte.

Amanhã é ter
a lembrança
o cansaço do entardecer
e o mundo laranja
impondo-se ouvinte.

domingo, 6 de setembro de 2015

Tô lá

Bebo toda, engolindo forte
a xícara pesada e dura
do café à tarde.
Ponho o líquido divino
em posição de expectativa e fé
no mar.
Ponho-o culto.
Deixo-me aqui
e ponho-o lá.

eu tô lá.

Abrindo as portas e os links
pras dores de cada chão,
pras dores de nada em vão
de toda morte verdadeira
que reina lá, longe de mim.
Rio vermelho do lado
de sangue longínquo, do lado
e de dentro de mim, ouvi que estou lá.

eu tô lá.


Corria

É só phia de Iansã
quando quer
é só fogo de Yemanjá
quando é

determinada mulher
que veste fogo
queima interrogações
em todos os caminhos
do mundo

queimastes toda a esperança
de um conforto perpetuado
abraça-me e beija-me tensa
com teu fogo salvaguardado
no queimar de teu coração
meu mais digno convidado


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Ao homem sofá

Apropriações cruéis
nas bocas grandes,
nos sangues, nos pés
do homem sofá.

Molham o ar rarefeito
da média cidade.
Tudo médio por lá.

Querias o sufoco da verdade?
Teu ponto, tua montanha, tua vaidade
abraçam com o sufoco do não ser.

Sufoco tão real quanto o que oprimes.
Lá fora, o barco toca o tal regime
num peso de navio negreiro,
numa guerra viva e nunca média
que é tua com
ou sem você.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

P onto.

Ponto.
Penso numa parada
parado num
passo.
Porta do dia
posta aberta
pelo gosto do acordar
pelo gesto iminente
procurado
por não
ponto ser.

Ponto,
pronto,
para, agora!
Peguei!
Precioso
pensamento ou
presunção
permissão
perseguido
por toda a noite
por dentro.
Por favor, agora
phale comigo,
por favor, fale!
Ppphale!!!
Porra!!
Passou...

Ponto.
Para você
posto estou
por mim em
pontos seus.
Pintas na pele amaciada
por minha boca.
Pintas
pelas quais me guio,
paixonado agora
para sempre.
Pintas na sua cintura nua
pegam-me pela pele
pelo amor, guiam-me
pelas outras pintas
para sua virilha.
Paro no teu corpo,
ponto meu
para amar.

Ponto.

Ponto é um P
P:
pronúncia simbólica -
prende o ar
pelos lábios e
põe pra fora, soa
P.

PONTO

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Resolvi, então, deixar-me abraçar pelo tempo.
Pelo nenhum movimento que, para ele, se faz.
Guarde em seu caminho meus passos disformes.
Dou-lhe o calor que emano
e deixo-me abraçar
pelo frio do tempo, sem menos, sem mais.

sábado, 8 de agosto de 2015

Sgt Peppers is dead.

Tarde difícil. Recluso-me em quarto branco, olho o teto, ponho uma nova guarda pra tocar. Dentre milhões de causas virtuais, de séries banais, acontecimentos casuais com pitadas de importância metafísica, chora-me nas mãos e no peito o suor duma lembrança: Sgt Peppers is dead.
Autopsia acusa: morte natural. ENVENENAMENTO, MORTE MATADA, maldito seja aquele por detrás da cadeira da monsanto. Cortou-me o caminho, amputou-me o ódio já encaminhado, abraçou-me em reformismo de sucrilhos e leite. Dorme agora, tranquila e desmotivada acomodada na ressaca mais pura, a juventude desanimada. Dorme agora sob hipnose. Dorme no leito dos outdoors, no leito da primeira classe do boing a caminho da disney.
O sargento morreu. Ceifada fora sua voz clara, comando militar único, pedido de desobediência - foi-se o que era burro, foi-se a resposta vintage. Permitido agora, o abraço do homem ao mundo, sem ordens claras, a malícia do burocrata transforma-se em telas em passo de livre exposição obrigatória. A nós, resta recomeçar. Sgt Peppers is dead.
Eles se renovaram, sobra-nos a energia para a foto à frente do espelho. Diante da tela, há de se procurar a boca que é o simbolo da nike. Há de se procurar num plano mais relaxado. Onde está a regra, agora? Ganhou roupa nova. Sentimos a força do domínio do tempo - eles melhoraram.
Sgt Peppers is dead. Dois lados mais do que vivos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Perdão por rima-los

Prendo num descanso amargo no peito
A utopia de todas as dores.
Trago no peito e mato sufocadas
As pequenas razões dos amores.

Sim, festa, encontro semiótico
Não sei ler mas depois sei chorar
Mil perdões aos olhos que me viram
Por amar por amor, por passar por passar.

Amor. Dor. Rimar.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Busca Implacável

O lençol, envolvendo todo o corpo antes de dormir, é o abraço do não. A negação, o cheiro de resistência conservadora impregna todos os cômodos em que se encontra solidão. Um verdadeiro adolescente, tentando dormir enquanto perde sua primeira festa numa casa sem pais, onde sabe-se que a verdadeira nuvem habita, onde sabe-se que o movimento se apaixonará pelo tempo, onde algum dia deixei aquele sonho imprescindível. Se deus exite, tem a impecável habilidade de esconder os motivos dos braços das palavras.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Curumim de Pedra (poema)

Pele não de couro.
Orgulho: um arranhão.
Voa no jardim,
De pé descalço, alisa o chão.

Fome do que havia ali,
Porque nasceu curumim.
Pele macia, sem atrito,
Marrom de leve, todo leve
Aonde leva o infinito?

Aprendeu, com a pedra,
Em meio ao Pedro, parado ser.
Pequeno estagnado,
Andando raso
Ama te ver.

Mas morrerá curumim?
Na poesia que escuta quieto
Na inocência de não ter fim?

Ou morrerá pedra sua?
Na metade do caminho não feito
Nem na rua ou na lua.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Curumim de pedra.

Sua pele, ainda não de couro.
Sua ferida leve, um arranhão - orgulho.
Vontade do jardim, voar, da fazenda, cavalos.
Fome do que havia ali, pequeno estagnado enganado, romântico.

Porque ele já nasceu curumim. Pele macia, marrom de leve, de todo leve, de todo planta, de todo pedra, parado. Pedro.
Morrerá curumim? Na poesia que escuta quieto, na metade do caminho, entre a rua e a lua.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ao ouvir ''Veja'', desconfie. Em todos os sentidos.

Costumo andar com uma janela pendurada no pescoço, não me lembro quando aconteceu. O triste pecado é que ando pelas ruas mais bonitas da cidade, os lugares mais prazerosos. Umidade, paralelepípedos, cerveja, fumacinhas.. Isso à noite, pelo dia, páginas, praias, quartos sombreados, cafés muitas vezes ruins, cansaços, trabalho. Acho que é genial, lindo. Pergunta-me sobre e sei descrever visualmente em claro e bom tom, só.
Sentado numa mesa amarela da skol, participo como posso de uma reunião de construção cenográfica, acontece no mínimo uma vez por semana, ela mantém o paraíso fora do lugar, injeta heroicamente a insanidade e a transcendência, do fim do velho sonho ao começo de um novo, de segunda a segunda. 
Só vejo. Vejo a construção, vejo os autores e autoras, atores e atrizes que tanto admiro, amo-os, idolatro-os, é o papel ridículo da janela, um dia eles ainda me matam. A construção cenográfica é assim, eles gastam o sangue, a cara, os dedos e os braços, eles dizem que dói muito. Aparece-lhes no rosto, de três em três minutos, um sorriso curto, um sorriso curto metatemporal, atemporal, ser mitológico, divino, o x da questão, da sobrevivência, sinal de nascença do ser sem gênero. E a construção continua, eles são envolvidos pela obra cada vez mais. Uma cena é obra que mais conhece a arte, que mais se aproxima dela, que mais tem a nos trazer do mundo poético, afora a poesia. Umas vez, um desses amigos heroicos me disse ''o teatro depois da poesia e a arte mais política. Olha a vida ali!''. Assisto pela minha janela.
Meus amigos atores a autores, autoras a atrizes constroem a cena, gastam sangue e mãos, mas de três em três minutos, o curto sorriso. 
Eu não sorrio como eles, costumo gargalhar de vez em quando de coisas que nem sei. Mas aquele sorriso, ah, aquele sorriso, vejo-o desde que me lembro andante dessas gostosíssimas ruas, aparecem de três em três minutos no rosto de cada um deles - dinâmica do desejo a acontecer,
Meu deus, o cenário estava lindo, parabéns aos envolvidos, do fundo de minha alma. A luz é fraca, amarelada, é possível olhar-se nos olhos sem dificuldades externas. O clima é o mesmo, mas é possível vestir-se como quiser, e todos estão belíssimos, por sinal. O som é meio ruidento, como um cobertor fino pra alma, mas num bom volume, é possível conversar sobre tudo. 
O cenário ficou maravilhoso. Eles se orgulham, são o que querem. Três minutos, um sorriso, abraçam-se e beijam-se. Uma lágrima escorre-me o rosto, Detesto essa janela.

domingo, 12 de julho de 2015

Mais um pouco sobre isso, mas deixe que apago a luz.

Sinto dizer-lhe que a decepção é mútua, grande mulher (ou só uma garota). Devo dizer-lhe, também e por começo, que sim - vivo de um lugar ainda raso, e só nisso você acertou.
  Fiz e refiz, vi você e revi, pensei (sim, eu penso) e repensei, e nas nada a ti interessantes voltas da minha cabeça, externei-me em ações enganadas, magoei-lhe, fiquei sabendo, e as desculpas já foram pedidas, e a pena ainda é cumprida.
  Você sabe o quanto não sabe o que senti. Convenceu-me, então, de que nada. Conclusão forte, cruel, digna de grande mulher. Uns cinco encontros e, com a força real do limbo escuro e divertido onde reinas, esculpistes minha caricatura magra, franzina, leve, oca. Escrevestes meu manual falho, pífio auto-depreciativo por merecimento. Fez-me de mera visão bonita, longínqua, vista de seu digno e verdadeiro lugar escuro, úmido do que é bom e divinamente bizarro, com a benção da juventude, onde todos os dias tento chegar (nisso você não acredita, sei), mas uma porta me foi fechada, a porta onde talhei seu nome, a porta por onde ressonam as teclas de um piano bêbado, a porta maior em que consegui chegar. Amarga ilusão, de ambos os lados..
  Sua voz nunca falhou. Lenta e baixa, mas nunca falha, como compreendem-se as vontades e os desejos nesse mundo real teu (onde tento entrar).  Seu agir é a melodia que rege o desejo, logo, o meu é o cúmulo do enganado. Convenceu-me mais do que esperava, talvez, hein? rsrs...
  Convenceu-me mais do que pensava. Mais o meu quarto ainda é o mesmo, paredes verdes e amarelas, e os seus textos estão para além do meu mero campo de visão. Eu não sou sua desgraça. Preciso continuar vivo com ou sem o seu caminho à floresta encantada. Eu preciso encontrar o beijo que não te dei, a voz que não fiz-te ouvir, os anos que estás à frente, o pensamento que me falta, preciso encontrar sem você. Vou-me embora não mais pro conforto do qual me acusa, vou embora atrás de um abismo mais fundo, de algo que me faça sentido. Vou, pois - como eu já disse, numa coisa você acertou: encontro-me num lugar ainda raso. Mas seu peso já não me ajuda a aprofundar.
  Se ainda vou olhar-te de longe, como o moleque atrás de uma grande mulher, não sei, mas não quero que olhes de volta para trás, para mim. Você já disse o suficiente, agradeço pelas críticas, os insultos guardo também. Agora, cada um com suas bizarrices, embora em países diferentes, quem sabe a gente não se encontra em um lugar mais escuro? Mas eu de cá, dessa tolice que não te interessa.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Ciúmes do vento.

Desespero-me pela impressão colorida
das fotos já suas de mim.
Tenho por alma o direito infiel
de adentrar pessoalmente seus fins!

Como pena e não como pai.
Como gente e não como homem mais.

Conte o que fiz e você não viu,
conte, sempre sonhou e nunca sentiu.
Conte-me: foi querer por ouvir um não
e então
desespero-me pela emissão
de mim.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

contem-me o que há.

Hoje a noite é clara.
Dou a vocês essa lua, amigos.

Aos meninos e meninas que vivem de olhos fechados
e de boca aberta
e falando só o que há.

Sou um rapaz assentado: ouço o que há
e amo.
Tentei, em ontens e amanhãs, acompanha-los na corrida e nos tropeços
e aos hojes
vocês retiram-me o lenço preto dos olhos..surpresa!
é foda, é foda, muito bom!
três de julho, sou menino atrasado mesmo.

Costumo, diariamente, pedi-los emprestadas algumas coisas atrás
atrás dos olhos, dos ouvidos, das mãos, do frio, da alegria, do caminho, da ida, da volta, da cama, do sono, da quietude... e do que há.

Não que eu não saiba de nada, amigos
afinal, vejam bem, olhem para isto!
Mas é que vocês...vocês...
dou a vocês essa lua. amigos!
e amanhã, contem-me o que há!

terça-feira, 30 de junho de 2015

Sobre aquele convite...

Teus olhos eram de fato lindos
e eles gostavam de mim.
Olhos lindos que gostavam de mim,
eram o convite mais doce à festa inexistente.
Nada era só festa, a vontade era de ver sangue.

A verdade vem com o tempo
e com a voz
pediu-me licença, tomou de volta os olhos
e o real convite fora feito pra fora da festa,
fora de mim, onde todas as noites guardo meus sonhos.
Você podia ter a chave...
Desculpe, mas ainda não tenho luz...
Amo outra pessoa.

Medíocre e desesperado,
apresentei meu convite:
minha cama, uma cadeira a três passos,
uma distância segura, de onde via seus olhos
e o movimento de sua boca.
Mas sua boca também é linda
e a vontade é de ver sangue.

domingo, 28 de junho de 2015

Catú

''Pode deixar aí que eu lavo'', diz-me Catú, anciã do calmo agreste.
De sua casa, longínqua num sonho, real numa estrada de barro e buracos, longínqua, trouxe-me as mãos para lavar
e cozinhar galinha, carneiro e feijão, ouro!
Catú não responde à tua fala rápida, estrangeiro progressista pós moderno às vez artista.
Catú diz sim e não, disse-me ''sim, pode deixar que eu lavo''
Catú diz não
Catú diz não
Catú diz não
ninguém ouviu.

Traz-me a cada fala velha, sotaqueada de e para sempre do mandacaru e da lagoa do boi, uma distância de terra seca e mãe de vida verde.

Deixo Catú amanhã, volto ao mundo outro, aquele.
Me pede um pouco do mundo, Catú, deixo-te e busco até mais..(minto?)
Exerce-me mãe do sertão
deixo-te a alma sedenta!
''pode deixar aí que eu lavo''.

Força

Força de incontestável validade
visto que sim, é amor.
Tesa sempre: constante em cada segundo de tempo sumido, subalterno.
Tesa sempre.
Às vezes, por escolha, justo.
Nunca por vaidade, somente.
Força que embrulha o estômago,
seca os pulmões,
prega os olhos em aberto,
já não mais respeita os limites do corpo,
já não mais ajeita-se ao comando de a gente.
Não conforta-se em sorriso.
Não mais mata a sede em lágrimas.
Aprendeu a ignorar as vaidades do tempo
esteticamente independente,
estupidamente ignorante.
Soberano. Discursos podem segui-lo à vontade.
O sangue quando sai do coração.
Traz-me mais felicidade, se possível,
fluxo constante, alquimia dos sentimentos: amor transcendental.

A lagarta, a flor, o casulo...o tempo.. a borboleta agora voa pra onde quiser.
Amor que já não cabe mais em nada.