segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ao ouvir ''Veja'', desconfie. Em todos os sentidos.

Costumo andar com uma janela pendurada no pescoço, não me lembro quando aconteceu. O triste pecado é que ando pelas ruas mais bonitas da cidade, os lugares mais prazerosos. Umidade, paralelepípedos, cerveja, fumacinhas.. Isso à noite, pelo dia, páginas, praias, quartos sombreados, cafés muitas vezes ruins, cansaços, trabalho. Acho que é genial, lindo. Pergunta-me sobre e sei descrever visualmente em claro e bom tom, só.
Sentado numa mesa amarela da skol, participo como posso de uma reunião de construção cenográfica, acontece no mínimo uma vez por semana, ela mantém o paraíso fora do lugar, injeta heroicamente a insanidade e a transcendência, do fim do velho sonho ao começo de um novo, de segunda a segunda. 
Só vejo. Vejo a construção, vejo os autores e autoras, atores e atrizes que tanto admiro, amo-os, idolatro-os, é o papel ridículo da janela, um dia eles ainda me matam. A construção cenográfica é assim, eles gastam o sangue, a cara, os dedos e os braços, eles dizem que dói muito. Aparece-lhes no rosto, de três em três minutos, um sorriso curto, um sorriso curto metatemporal, atemporal, ser mitológico, divino, o x da questão, da sobrevivência, sinal de nascença do ser sem gênero. E a construção continua, eles são envolvidos pela obra cada vez mais. Uma cena é obra que mais conhece a arte, que mais se aproxima dela, que mais tem a nos trazer do mundo poético, afora a poesia. Umas vez, um desses amigos heroicos me disse ''o teatro depois da poesia e a arte mais política. Olha a vida ali!''. Assisto pela minha janela.
Meus amigos atores a autores, autoras a atrizes constroem a cena, gastam sangue e mãos, mas de três em três minutos, o curto sorriso. 
Eu não sorrio como eles, costumo gargalhar de vez em quando de coisas que nem sei. Mas aquele sorriso, ah, aquele sorriso, vejo-o desde que me lembro andante dessas gostosíssimas ruas, aparecem de três em três minutos no rosto de cada um deles - dinâmica do desejo a acontecer,
Meu deus, o cenário estava lindo, parabéns aos envolvidos, do fundo de minha alma. A luz é fraca, amarelada, é possível olhar-se nos olhos sem dificuldades externas. O clima é o mesmo, mas é possível vestir-se como quiser, e todos estão belíssimos, por sinal. O som é meio ruidento, como um cobertor fino pra alma, mas num bom volume, é possível conversar sobre tudo. 
O cenário ficou maravilhoso. Eles se orgulham, são o que querem. Três minutos, um sorriso, abraçam-se e beijam-se. Uma lágrima escorre-me o rosto, Detesto essa janela.

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