segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A luz

A luz no fim de tarde
é o auge da promessa.
A luz no fim, amarela
e o vento corrento a acariciar
com as mãos de pluma do tempo
na nossa pele
e nossa pressa
é a saudade do estopim
da vontade de amarelar
a luz
no fim de tarde
é o auge da promessa.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Arruma

arrumadeiro é ter fé nas próprias mãos
ser amigo do tempo e, em vão, sorrir
sem esperar pelo vão.

só, solidão tranquila
é o que destila o ranço d'outro carnaval
deixa só a lembrança de amor e, com camomila
trata-se o vento no varal

arrumadeiro é de casa forte
pra quando descermos possa-se prosear
sem pesar
despejar no vento uma cena nova
e precisar o resto rearrumar

pode deixar que eu levo
o bolo e o café que fiz co calma
pra qualquer lugar
sem muita confusão
pra nós
e o que vier
tem
nossas mãos
prarrumar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

procuro um desmaio pra todo motivo
que eu tenha de mover qualquer dos membros meus
e então prevenir-me do corte incisivo
desses atos sem canto pra chamar ninguem

de acreditei
não tenho nada
desacreditei
do que ja fiz

use como quiser
minha palavra sem nome
que meu corpo é
uma mentira até o fim.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

o diabo não tem família,
e o menino continua a gritar
que aqui, depois do muro, ta mais escuro,
ta mais gostoso, às luzes esparsar amarelas
que como num sonho
não tenho como desligar.
Não há interruptor,
não interromperás, há no trato do big bang.
deixa a grita gritar
que pra não parar
a pele batendo na mão.
pele do tambor
mão de apertar outra.
mas o diabo não tem familia
e todo mundo
sente sono.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

corto-me todo dia à velocidade de um ano novo
novo menos sou
pra perto de alguem.
enquanto não corto-me todo
não adianta
terei mais um novo ano
novo corte
menos
menos
e eu

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Os sorrisos ficam todos abestalhados

tenho imensas dificuldades em concentrar-me uns tantos segundos numa análise do meu caminho, do meu sentido, de onde pra onde, do que fiz pro que virá, sem enraivar-me de minha mediocridade perante essa obra que gira, flutuante, sem tamanho, sem peso, sem fim, essa obra assinada por mim. É uma obra inútil, falsa. É parar, admirar-se, sentar num banco, evolver-se numa abóboda de amor sem paixão. Tenho imensas dificuldades de me concentrar. 
Ficar bêbado permite uma imbecilidade sábia, permite que crie-se o menor caminho possível ao que lhe trará felicidade. Não importa o tamanho do caminho à felicidade, afinal ela só existe depois do caminho e morre antes do próximo. Então, bebes, acha logo, passas, também, logo e o que vale é o que pensas sobre aquele segundo, aquele segundo em que chegastes sem pensar em nada. Por isso ficar bêbado apesar de sábio, é imbecil, não há como pensar depois... 
Me concentrei, já, em outros momentos, no que me faria ser qualquer coisa, mas aquela qualquer coisa, aquela que eu queria, aquela que por qualquer outra coisa me traria felicidade. E, porra nenhuma! Não interessa o peso do porque me traria, esse peso é indiscutível quando já está em passos daquilo. Quando já está no caminho, quando já está concentrado. Tenho imensas dificuldades para me concentrar. 
Levanta-se do banco
sem se perguntar porque 
face séria 
sério
anda sem pestanejar 
pra beber um copo d'água
pra beijar aquela boca 
pra ter aquele estilo
pra dançar aquele gruve 
pra qualquer coisa
que não é qualquer
pela concentração de
que a felicidade existe é nesses fins.

tenho imensas dificuldades para me concentrar. Fico sentado no banco, olhando essa obra inútil, os sorrisos ficam todos abestalhados. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

quando me dizem

qual será a matéria de meu olhar noturno,
senão a claridade solar desses seus trejeitos?
Há uma cega história de amor
entre os passos suados, poderes de insônia,
força, pira da jornada pela qual me apaixono,
correria em casa, rua, nua, chapada, peguenta, cansada
de frente à sua tela
força, paixão, nua, correr, chapar, cansar, insônia, poder, suar,
- joviar, duvidar - verdade
e
minha falta de fé
nessas pernas finas
e sem vigor
abaixo do meu tronco.

beije-me três vezes em três dias
e me verá, então, enquanto pedra que, mestre,
fundo, noite, olhar,
sou.